Allan Francis é autor do livro fantástico Corações nas Sombras, lançado em setembro deste ano pela editora Chiado, batemos um papo bem legal com ele, onde o mesmo mostrou seu ponto de vista sobre temas importantes da literatura fantástica e obviamente sobre seu livro assim como seus próximos projetos.

Antes de tudo leia nossa RESENHA de Corações nas Sombras Vol 1: Presságios de Guerra > Clique AQUI
ENTREVISTA – ALLAN FRANCIS SALGADO

1) Olá Allan, seja muito bem-vindo ao Acervo do Leitor, é uma honra tê-lo como parceiro do nosso projeto. Se apresente para nossos leitores, quem é Allan Francis?

Bom pessoal, meu nome é Allan Francis, sou mineiro, cruzeirense óbvio, tenho algumas paixões na vida, como o Direito e a escrita e tento concilia-las com meu dia a dia, tenho um canal no youtube onde ajudo concurseiros com vídeo aulas e dicas de concurso e nas horas vagas, que são poucas escrevo, coisa que amo e faço desde criança, desde o momento em que conheci os livros, sempre me senti fascinado, eu digo que os livros são as chaves para mundos fantásticos.

2) Sabemos das inúmeras dificuldades para publicar um livro e alcançar um desempenho satisfatório em nosso Pais, o que o motivou a escrever Corações nas Sombras? E na sua opinião, o que poderia ser feito para ajudar os nossos autores nacionais?

Primeiro eu escrevi Corações nas Sombras, porque senti que é uma estória que precisava ser contada, perdia o sono pensando que tinha que começar a escrevê-la, antes que perdesse tudo aquilo que estava em minha mente, então no começo foi como um desabafo, foi um colocar para fora, mas depois comecei a amar o que estava fazendo, pode parecer tolice, mas foi justamente o que aconteceu.
Quanto ao mercado editorial brasileiro, temos que entender os dois lados, editoras de renome vivem para fazer dinheiro e neste ramo não se pode apostar muito não, sob pena de perder grandes investimentos, isso reflete negativamente em nosso mercado atingindo os nossos autores, primeiro porque as editoras recebem centenas de originais todos os meses o que torna difícil um processo de seleção, segundo porque as grandes editoras preferem investir no que já deu certo, então ou publicam autores estrangeiros que deram certo em outros países, que aliás não é sinônimo de sucesso aqui, ou investem em autores brasileiros já consagrados, assim sobra pouco espaço para o iniciante.
O que pode ser feito para que isso seja mudado? Bom penso que primeiramente a postura tem que partir do mercado de consumo, dos leitores, devemos acabar com o mito “ só o que é de fora é bom”, realmente temos escritores maravilhosos lá fora, assim como temos muita porcaria que vem de lá e é comercializada aqui com grande publicidade, investimento em capa e tudo o mais, mas que quando a gente lê, pensa: joguei meu dinheiro fora.
A segunda coisa que acho que as editoras deveriam fazer para filtrar autores brasileiros seria concursos literários em alguns segmentos, romance, poesia, terror, fantasia, suspense etc, assim surgiria mais oportunidade para os bons autores que estão no ostracismo.


3) Quais são as suas maiores influências, sejam elas literárias ou não e como elas contribuíram contigo para a elaboração do seu livro?

Se eu disse que boa parte vem de desenhos animados vocês acreditam? Kkkkk bom sou fã, muito fã de animes japoneses, tais como Cavaleiros do Zodíaco, Samurai x ou desenhos americanos estilo Liga da justiça, Avatar, X-men.
No que toca a influência literária, o mestre para mim é o Stephen King, incomparável, ao lado dele caminham Tolkien, J.K. Rowling, Neil Gaiman, Machado de Assis, a verdade é que procuro ler de tudo quando sobre tempo, o que na minha vida é muito raro, agradeço de ter lido muito na infância e na adolescência.
Cada autor, cada desenho me influência de uma forma diferente, as vezes a escrita de um, a ideia de outro, o desenvolvimento de uma cena de outro é muito complicado, mas o que mais levo de um livro é capacidade de me fazer imaginar e sonhar com aquelas coisas.

4) A Fantasia está crescendo progressivamente em nosso Pais, hoje temos um acervo muito maior do que já tivemos um dia, qual sua visão sobre este crescimento? E a importância disso num contexto literário geral?

O pessoal tá saindo do armário, kkkk, tá dando a cara a bater e está tentando conquistar seu espaço e mostrar seu valor, considero que é uma jornada longa e trabalhosa para nós, mas iremos atrás do nosso lugar ao sol.
No contexto literário isso tem dois aspectos, um bom, muita gente nova aparecendo, não quero citar nomes, com receio de esquecer alguém com um bom trabalho, mas esta diversidade de autores enriquece bastante o cenário nacional. Por outro lado, quanto mais oferta há, menos chance o autor tem, pois, como dito as editoras não costumam apostar muito em nosso mercado.

5) Falando sobre o seu livro, apresente-o aos nossos leitores, do que se trata Corações nas Sombras? Quando começou a escreve-lo? Quantos livros você tem planejado para a saga e como está o processo dos próximos volumes?

Por mais óbvio que isso possa parecer, Corações nas Sombras se trata de pessoas, dilemas e escolhas, claro que isto tudo tá colorido com magias, dragões, guerras.
Olha a coisa mais difícil para mim é resumi-lo, pois na verdade não temos uma estória, mas várias com vários personagens correndo em paralelo, assim, alguns leitores se identificam com um ou outro personagem e com outro não, mas o pano de fundo é o roubo de seis talismãs e a iminência de guerra. Como dito cada personagem tem seu dilema e está em um determinado local, a forma como tudo se entrelaça e se une na trama é o que ao meu ver dá brilho a narrativa.
Comecei a escrever o que hoje seria o livro 4 em 2003, cheguei a 120 páginas e parei, estava na faculdade, emprego que me exigia muito e tive que mudar de cidade, na época considerei a escrita meio boba, dez anos depois peguei novamente para escrever, corrigi e revi tudo que tinha sido feito e cheguei a uma conclusão:
Vou ter que parar o que estou escrevendo e começar a contar a estória lá atrás, quinze anos atrás, por isso o livro começa com uma carta.
A ideia é fechar em cinco livros, parece ambicioso eu sei, mas infelizmente ou felizmente a estória é grande, o livro um que será sorteado terminou com muitas coisas a serem explicadas, coisas que se resolvem no livro dois que está em sua fase final e tem quase o mesmo tamanho, posso resumir os títulos assim:
Livro I: Presságios de Guerra
Livro II: A Queda dos mundos
Livro III: Fragmentos do Caos
Livro IV: A ascensão da Imperatriz
Livro V: Fé.
Muita coisa do livro quatro esta pronta.


6) Corações nas Sombras é um livro bem complexo, são a princípio dois mundos, Ifianor e Agonia (conforme descrito durante o livro, há outros também), Ifianor é composto por 2 continentes, 18 reinos e várias outras cidades, são dezenas de personagens, diversas raças e culturas diferentes, como você lidou com tudo isso logo no seu livro de estreia?

Olha muita da estória eu tinha em mente, mas muita coisa mesmo eu fui criando aos poucos, foi surgindo, como dizem alguns escritores a estória em muitas partes se apresenta, tive que fazer muitas, mas muitas anotações, para amarrar tudo com coerência, mas depois que o mundo foi alicerçado, explorá-lo ficou mais fácil.
Realmente foi um desafio grande, pois embora tenha muitos projetos e contos prontos, Corações nas Sombras era algo muito maior, são 736 páginas no primeiro livro, mas não desanimei, pelo contrário me aventurei.

7) Ao ler a obra, fica claro que você decidiu por ir desenvolvendo os personagens pouco a pouco, inserindo camadas em suas personalidades ao longo do livro, para mim este é um dos grandes pontos positivos da obra, como foi este processo? Foi natural ou você já tinha planejado? Você acha que se desenvolveu junto com teus personagens?

Olha algumas coisas eu tinha planejado, até porque não dá para apresentar alguns personagens de uma vez, mas muita coisa foi acontecendo naturalmente, o personagem foi se mostrando para mim, fico feliz por ter gostado deste aspecto.
Se eu acho que me desenvolvi com eles, como escritor principalmente, ao longo de páginas e páginas a gente fica mais crítico, mais observador e considero que escrever Corações nas Sombras me mudou muito.

8) Gael é para mim o personagem mais interessante do livro, ele foge um pouco do contexto “mágico” do mundo principalmente com suas invenções e sua persistência para atingir seus objetivos, como foi que ele surgiu durante a criação do livro?

Gael é um personagem que me identifico muito, pois ele é batalhador, esforçado e firme em suas convicções, sem apresentar spoiller, podemos ver que Gael muda de uma coisa para outra no livro sem perder sua essência, ele é um cara que como ele mesmo diz, faz o melhor com o que tem, para ele pouco importa não ter talentos mágicos, ser questionado, desacreditado, ele enxerga além destas coisas e embora aconteça muitas coisas com ele, ele não se perde, não perde seu rumo, pelo contrário ele potencializa o que há de melhor nele, um personagem peculiar e cativante.

9) Ifianor é rodeada de muita magia em diferentes formas, eu me senti muitas vezes em um jogo de RPG, com todas aquelas magias de proteção e fortalecimento, você é jogador de RPG, mesmo que jogos eletrônicos? Fale um pouco sobre este processo de criação das magias.

Já joguei RPG quando adolescente, principalmente Vampiro a máscara e Lobisomem o Apocalipse, assim como joguei muito Magic, mas o jogo perdeu muito ao focar em cartas muito caras. Quanto a jogos eletrônicos, sou muito fã, mas a facilidade com que vicio em vídeo games me fez aboli-los de minha vida a uns quatro anos, doutorado e concursos públicos não se alinham com jogos e meu foco agora é na minha carreira tanto no direito, quanto na escrita.
Quanto as magias, bom deixei o básico da criação para o primeiro livro, onde não vimos muitas magias muito sofisticados, exceto em algumas passagens, mas algumas surpresas vêm no livro dois.
Desenvolver um sistema coerente de magias e coloca-las num livro e em combates realmente deu trabalho, tentei ser o mais natural possível, respeitando as características de cada classe de guerreiros, exemplo necromancer, magias de invocação e algumas outras magias.
O ponto que mais gostei foi a elaboração das magias negras, afinal em todo livro a maioria quer ser o mocinho, mas ver o mocinho usando magias negras choca um pouco, então fui introduzindo aos poucos para que o leitor pegasse familiaridade e muita gente que leu, gostou demais deste aspecto.

 

10) A Fantasia está perdendo aquela “fama” de livros infantis e sem conteúdo nos últimos tempos, Corações nas Sombras possui muitas cenas de violência e até de conotações sexuais, qual sua visão sobre estes elementos no livro?

Este é um tópico que questiono muito as pessoas, muitas por inexperiência literária, por preconceito bobo falam que não gostam de livros de fantasia, pois associam o gênero com contos infantis, mas quando pergunto: Você já leu O Senhor dos anéis, Game Of Thrones, Harry Porter, entre outros, primeira coisa que respondem é que sim, ora, isso é um contrassenso, não é? No Brasil criou-se uma denominação própria que acho ridícula, literatura fantástica, aí rotulam fantasia com algo extraordinário e deixam de ler livros assim, bom me parece falta de amadurecimento do povo, mas esta onda de autores novos de fantasia vem quebrando este paradigma.
Quando terminei de escrever o primeiro livro, fiquei muito tempo pensando se cortaria as cenas envolvendo sexo, foi um dilema, em especial dois personagens se veem mais constantemente com esta tônica, depois de muito pensar, mesmo sabendo que perderia alguns leitores mais jovens decidi que se retirasse descaracterizaria os personagens e as situações e isso não seria justo com o leitor.
No que toca a violência, realmente tem muitas cenas violentas, especialmente do meio para a frente, mas eu queria retratar o mais fielmente possível os combates e guerras, aqui não tive muito dilema não, só pensei, tem que ter e ponto final.

11) O que podemos esperar dos próximos volumes da série Corações nas Sombras?

Você destacou a evolução dos personagens, creio que para quem leu, ficou a curiosidade de como eles irão se portar e o que irá acontecer com eles correto? Então os personagens irão evoluir bem.
A trama que é o ponto central, vai se aprofundar com o surgimento de outros personagens que apenas foram citados e iremos conhecer outros lugares do mundo de Ifíanor, creio que o livro dois está melhor que o primeiro isso é tudo que posso adiantar.
12) Primeiramente agradeço imensamente por você nos dedicar um pouco do seu tempo nessa entrevista, o Acervo do Leitor quer muito incentivar a todos os nossos leitores a conhecerem Corações nas Sombras e demais obras de Fantasia Nacional, temos uma riqueza muito grande e que merece ser explorada. Gostaria de deixar um recado para os leitores?

Sim, primeiro queria pedir que abrissem a mente para o mercado nacional de fantasia, tem muita coisa boa surgindo e acredito que todos temos a ganhar.
Quanto ao meu livro, acredito que a relação custo benefício do livro é boa, ele não é caro e considero que quem se aventurar por suas páginas não irá se arrepender, tudo foi feito com muita dedicação para trazer uma estória interessante, envolvente e que despertasse e imaginação de todos, então se arrisque se não gostar me mande suas críticas, temos a humildade de reconhecer que estamos em constante aprendizado.

Obrigado pela oportunidade e sucesso a você Artur.

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