O LIVRO DAS COISAS ESTRANHAS
Autor: Michel Faber
Ano de Lançamento (BR): 2016
Nº de Páginas: 528
Editora Rocco
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SINOPSE
Último romance do aclamado Michel Faber, autor de Sob a pele e Pétala escarlate, flor branca, entre outros, O livro das coisas estranhas teve calorosa recepção do público e da crítica, figurou na tradicional lista do The New York Times dos 100 livros notáveis do ano em 2014 e reafirma a posição de Faber como um dos mais inovadores e interessantes escritores contemporâneos. A trama se desenrola num futuro próximo e acompanha o pastor Peter Leigh na missão de catequizar a civilização extraterreste do planeta Oasis. Afastado de sua mulher, seu gato, seu mundo, Peter vê sua fé ser testada até o limite, progressivamente se alienando de sua própria espécie, numa narrativa tocante que leva o leitor a refletir sobre temas como amor, separação e a natureza da fé religiosa.

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RESENHA
O livro conta a história de Peter Leigh, um ex-drogado antes de sua conversão ao cristianismo, que se tornou um pastor “evangélico”. Como evangélico ele crê na pessoa e na obra de Jesus Cristo (Deus encarnado que veio a terra morrer por nós pecadores). Como evangelista, e ministro da fé cristã, ele se voluntaria para uma nova e estranha missão: ser pastor para os seres nativos do planeta recentemente descoberto chamado “Oasis”. Os próprios alienígenas estão solicitando alguém para lhes pregar o Evangelho e ensinar a Bíblia (O livro das coisas estranhas). Peter está eufórico com a missão, animado com os novos desafios e caminhos que Deus preparou para ele. Só que há um problema, sua esposa Beatrice não vai poder acompanha-lo na viagem. A empresa responsável pela pequena colônia humana instalada no planeta descoberto, uma misteriosa organização conhecida como USIC, a considerou inadequada para a missão, e eles terão que se separar. Peter (sozinho) é transportado para o planeta alienígena através de um “salto espacial” abordo de uma nave com uma estranha tripulação. Agora, em “Oasis”, começa sua jornada evangelística em meio a criaturas e uma cultura adversa. Talvez longe da Terra ele descubra um desafio maior do que converter alienígenas, o surgimento de um abismo emocional intransponível e crescente que começa a se abrir entre ele e sua esposa Beatrice (Bea)

“A raça humana teria sido poupada de muita dor e violência se as pessoas não tivessem se apegado tanto a nomes como Stalingrado, Fallujah e Roma, concentrando-se simplesmente em morar ‘aqui’, seja lá onde e qual fosse esse ‘aqui’.”

Em “Oasis” Peter logo descobre que misteriosamente não há quase nenhuma informação disponível sobre essa raça alienígena, tornando o encontro com os mesmos muito mais assustador. Mas se eles (alienígenas) estavam ansiando por escutar as “Boas Novas” (Evangelho), será que realmente há algo a temer? Já adaptando ao tolerável clima alienígena o pastor aos poucos vai entendendo a estranha relação econômica (escambo) entre a equipe que dirige a base da USIC formada por seus colegas engenheiros, farmacêuticos, linguistas, outros profissionais técnicos e os “Oasianos”, assim como a vida e os costumes dos nativos. Enquanto isso Peter é capaz de se comunicar com Bea (esposa) através de um tipo de e-mail interplanetário. Logo ele descobre que a Terra está presenciando sinais “na terra e nos mares” que anunciam a chegada do apocalipse cristão, quando nosso planeta irá sofrer catástrofes até se destruir com a segunda volta de Cristo. Atormentado pelas caóticas notícias de sua esposa, e ocupado demais com sua nova vida, ele se vê levado ao limite do seu esgotamento físico e emocional.

“A esperança é uma coisa frágil, feito uma flor. Sua fragilidade faz dela algo fácil de se menosprezar por gente que vê a vida como uma provação, gente que fica zangada quando vê algo em que não consegue acreditar dar consolo aos outros. Preferem esmagar a flor com a sola do pé. Mas, na verdade, a esperança é uma das coisas mais fortes no Universo. Impérios caem, civilizações desaparecem e viram pó, mas a esperança sempre retorna, emergindo do meio das cinzas, crescendo a partir de sementes sensíveis e invencíveis.”

O livro realmente é uma ficção científica? Depende, você pode aborda-lo desta forma, pois há vários elementos que categorizam esta obra como tal. Mas não vejo assim. É um romance. Uma história de amor entre Peter e Beatrice. Uma história de amor entre Peter e o Evangelho de Jesus Cristo. Uma triste história de abandono e distância que nos faz refletir até onde há a necessidade de contato para haver amor? Relacionamentos e fé sobrevivem ao silêncio e a falta de toque? O tempo tudo cura e apaga ou algumas coisas são mais resistentes que essa força inimaginável?

“Nunca frequentei uma escola bíblica. Fiz faculdade de Alcoolismo e Abuso de Drogas. E me diplomei em Decoração de Interiores de Vasos Sanitários e… hã… Visitas a Prontos-Socorros.
– E aí você encontrou Deus?
– Eu encontrei uma mulher chamada Beatrice. A gente se apaixonou.”

Independente dos elogios rasgados que se vê pela internet como “genial” ou “obra-prima” acho que o livro se perde um pouco no meio. Se você olhar pela ótica de uma aventura no espaço, apesar do bem criado mundo (Oásis), você poderá se decepcionar pelo autor abordar de forma tão superficial o que tange as questões futurísticas e espaciais. Na verdade, a ficção serve de pano de fundo para o drama pessoal entre o casal e a mensagem evangelística inegável da obra. Olhando como um drama, por vezes pode ser cansativo a troca de informações (e-mails) entre os protagonistas. Há muitos detalhes e informações dispensáveis que quebram o ritmo da narrativa e atrapalha o envolvimento com os personagens. Para quem têm algum preconceito ou rejeição com as Escrituras (Bíblia) também irá esbarrar neste problema, pois ela é citada literalmente em diversos momentos. A ideia geral do livro é ótima, mas por tentar abordar tantos temas juntos acabou sendo superficial em sua realização. Se o foco principal (a relação de Peter e Bea) fosse mais claro na execução da história seria mais fácil se apegar e se sensibilizar com a história de amor contada. Um livro interessante sem dúvida, mas muito difícil de se indicar.

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