A CIDADE DOS ESPELHOS (A Passagem #03)
Autores: Justin Cronin
Ano de Lançamento: 2016
Nº de páginas: 688
Editora Arqueiro


SINOPSE

Num futuro em que todas as regras foram mudadas, é hora de cada um encontrar o próprio destino. Ano 100 D.V.: após a destruição dos Doze e de seus Muitos, nenhum viral foi visto nos últimos três anos. As fortalezas que protegiam os últimos humanos dos infectados começam a parecer desnecessárias. Na República do Texas, as vigílias constantes já não encontram inimigos e o controle de natalidade se mostra um contra-senso quando há todo um continente vazio à espera de ser repovoado. Com novas demandas do povo surgindo a cada dia, o presidente Peter Jaxon decide levar adiante a ideia de abrir os portões da cidade fortificada e dar início à reconstrução do que um dia foi um país de milhões de habitantes. Mas a atmosfera de calmaria é apenas parte de um plano maligno. Fanning, o Zero, aquele que deu início ao caos, esteve pacientemente aguardando em sua eternidade pelo momento em que as vítimas finais baixariam a guarda. Seu exército está pronto e, em suas fileiras, as armas são garras e presas e a motivação é a sede de sangue. Para fechar essa tão esperada trilogia, Justin Cronin construiu um conto de sobrevivência e fé, em que os limites entre o bem e mal são postos à prova e um questionamento inquietante permeia cada página: o que nos torna humanos, afinal?


RESENHA

Este livro é a conclusão da aclamada trilogia de Justin Cronin que começou anos atrás com “A Passagem” e sua continuação “Os Doze”. No Brasil esta série continua a dividir opiniões. Sempre 8 ou 80. Pessoas que desistiram da leitura no meio por achar a escrita com um ritmo muito lento e fãs ardorosos e apaixonados que consideram a série uma obra-prima. Faço parte do segundo grupo. O foco da história sempre foi Amy, a Garota de lugar nenhum, Aquela que surgiu, a Primeira. A esperança de um planeta destruído por um vírus mortal. Apesar de ser praticamente imortal e dotada de poderes espetaculares, ela ainda transmite uma “fragilidade” que toca os leitores, e nos faz questionar: seria Amy, e seus companheiros, realmente capazes de deter tamanha destruição ou a Terra já estaria condenada?

“Peguei a mulher primeiro. Montada no companheiro no banco amplo, estava saltando tão loucamente sobre a anatomia dele (…) que, quando escancarei a porta, pareceu mais irritada do que alarmada, como seu eu a tivesse interrompido no meio de um pensamento particularmente importante. Isso, claro, não demorou muito, não mais que dois segundos. É uma verdade interessante que o corpo humano, liberado da cabeça, é em essência um saco de sangue recheado de palha. Segurando seu tronco sem cabeça, posicionei a boca em volta daquele orifício que soltava jatos e dei uma sugada longa, vigorosa.”

A história se passa alguns anos após os acontecimentos do livro “Os Doze”. A vida dos sobreviventes entrou em uma nova fase em que parece que os virais foram extintos. Alguns destes humanos sobreviventes continuam a viver em uma base militar no Texas, mas muitos voltam a viver ao “ar livre”, fora das zonas de proteção, e começam um processo de re-colonização. Destaque como sempre para Peter Jaxon, o “Homem de Dias” por quem Amy se apaixonou. Apesar de continuar desaparecida, eles se comunicam por sonhos onde desfrutam uma vida a dois regada por música e muita paz como dois amantes. Do outro lado da história temos Alícia das Facas, cada vez mais atormentada pelo chamado de Fanning “o Zero”. Ele deseja encontra-la em Nova York. Mas desse encontro teremos morte ou uma estranha aliança? No meio disso tudo continuamos a acompanhar a vida de Michael, Sara, Hollis e cia. cada vez mais embrutecidos e tendo que lidar com os dilemas, mágoas e angústias gerados por uma vida fragmentada pela violência.

“Cidade de memórias, cidade de espelhos. Estou sozinho? Sim e não. Sou um homem com muitos descendentes. Eles estão escondidos(…) no sono eles se tornam eles próprios de novo; nos sonhos, eles retornam suas vidas humanas. Que mundo é o real? Só quando acordam a fome os oblitera, dominando-os, com as almas se derramando na minha, e assim eu os deixo como são. É a única misericórdia que posso oferecer”

Na cidade de Nova York, Fanning conhecido como Zero que deu inicio a destruição global, conta seu passado. Desde sua infância até a faculdade. Sua formação profissional e os acontecimentos que levaram a se envolver nas pesquisas de Lear na América Latina que culminou com sua transformação. Descobrimos as razões que distorceram a humanidade deste monstro muito antes de ele ter sido contaminado. Até que ponto feriadas no coração são irreparáveis? Uma longa, e questionável, parte do livro que seria uma biografia do nosso vilão. Nos faz refletir se o mal gerado por nós seria apenas consequência das atitudes maléficas, intencionais ou não, dos outros. Depois desse “intervalo” na narração, há um salto no tempo, constante em toda a trilogia, e encontramos o envelhecido Peter, agora um relutante presidente do Texas, coordenando uma larga população na iminência de um ataque. Ainda existe um exército de virais comandados por Fanning marchando em seu encontro. O que nos leva ao retorno de Amy e aos derradeiros eventos finais onde haverá um encontro épico, e fatal, entre ela e o Zero.

“A história não é o que a senhorita comeu no café da manhã. Esses são dados sem importância, que são levados pelo vento. A história é essa cicatriz em sua mão. São os fatos que deixam marca, o passado que se recusa a permanecer no passado.”

Ao término desta série chego à conclusão que ela não é para qualquer leitor. Justin tem uma habilidade espetacular de nos guiar por caminhos distantes, nos afastando demais da trama principal, para depois nos trazer de volta de forma “segura” e impressionados por explorarmos histórias dentro da história. Como se cada volume da série fosse uma grande “colcha de retalhos” aparentemente desconexos, mas perfeitamente costurados que não serve apenas para nos agasalhar, mas também para nos deleitar. A trilogia é sobre um futuro “apocalíptico” gerado por um vírus, mas o autor nos presenteia com muito mais. Terror, suspense, drama, romance, filosofia, religião, política e quase tudo que pode ser abordado dentro da literatura. Cronin não tem medo de explorar, e não deixa pedra sobre pedra quando o faz. O leitor que aprecia sua obra possui um certo tipo de “maturidade”, e os que ainda não possuem, adquire. A trilogia “A passagem” deixará saudade, pois não se preocupou apenas em trazer entretenimento, mas um pouco de enriquecimento para nossa alma.

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